
Uma coisa natural quando se vive na cidade (ou a saltitar de cidade em cidade) é que não se vêm muitas estrelas. A Lua sim, a Lua cheia naqueles dias de luares baixos em que parece que ela está mesmo ali à mão, grande e laranja, esses vêm-se nas cidades nem que seja por um qualquer intervalo dos prédios. Quanto às estrelas nem por isso, mesmo quando falha a iluminação pública como nalgumas cidades por onde temos andado. Há sempre algumas luzes nas cidades, poluição luminosa e alguma da outra, nenhuma delas favorece a observação nocturna dos astros. Nas aldeias é diferente, lá como cá as pessoas funcionam mais próximas dos ciclos da Natureza, a luz do dia a marcar o ritmo da vida. Por volta das cinco-e-pico já é claro, às dezoito é noite, depois dessa hora nas aldeias pouca actividade restará no exterior. E o recolhimento convidará a outras práticas que dispensam a luz, não é?
Nas províncias do Nordeste, com clara evidência na do Uíje, alguém resolveu equilibrar as coisas entre a cidade e o campo e equipou as vilas, aldeias e comunas com uma multidão de candeeiros de iluminação pública. Imagino que seria personalidade afastada do lobi dos geradores e do gasóleo para os geradores, uma vez que todos os lugares habitados foram dotados de candeeiros coroados com uma bateria e um painel solar de 100x60 capaz de carregar a dita, mesmo num dia sombrio, com energia suficiente para uma noite inteira de ilminação pública e notória. E de caminho, quem sabe, aproveitar para vender mais uns títulos de emissões de carbono, que é bom negócio nos países “em vias de desenvolvimento”. Também é possível que tenha sido apenas uma “oportunidade de negócio” sem objectivo e que ajudou a enriquecer alguém ligado a uma petrolífera monopolista dos painéis solares, ou um projecto de "desenvolvimento" das Nações Unidas, que sei eu. Independentemente dos objectivos mais ou menos inconfessáveis que levaram a tão numerosa instalação, é surpreendente o aspecto do musseque ocre e varridinho, da aldeia de barro vermelho decorada com duas filinhas de candeeiros hi-tech a marginar a vereda que leva à floresta, ou a delimitar os frisos das bananeiras nos quintais. Na cidade, também há destes candeeiros profusamente distribuídos ao longo de todas as avenidas, apenas com uma luminária variante cor-de-laranja nas estradas principais como que a assinalar a importância da via.
Imagino que este curioso projecto de iluminação não tenha sido bem recebido pelos habitantes da região, nem na cidade de camponeses nem nas aldeias rurais. As populações devem ter ficado descontentes por verem o sossego nocturno perturbado pelas luzes novas, a serem obrigados a reinventar as cortinas, com dificuldades de sono acrescidas por o dia nunca mais acabar. E nós sabemos que os distúrbios de sono geram stress, neuroses, nóias diversas, levam à droga, à loucura, à morte. Deve ter sido por uma razão deste género que os candeeiros actualmente estão todos apagados, creio eu. Porque estamos numa região profundamente rural, imagino que os camponeses, perturbados no seu descanso nocturno, com as horas trocadas pela iluminação artificial, em desespero, passaram-se dos carretos e apagaram os candeeiros todos. Voltou assim o aconchego da escuridão nocturna e o acordar a horas certas com o canto do galo, a ceia à luz da vela, restabelecida a harmonia da aldeia e dos homens com a Natureza. Ficaram os candeeiros decorativos, a serem paulatinamente derrubados pela terra mole que insiste em dissolver-se debaixo deles depois das chuvas, um ou outro caindo no caminho dum condutor desastrado. Foi restabelecida a paz social, não acende nem um candeeirinho para amostra. Também pode ser apenas falta de manutenção, mas não encontrei ninguém que quisesse falar sobre o assunto.
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